Carta aberta aos senhores Presidente, Diretores e Conselheiros da PETROBRAS

 Sei que vocês foram convocados para resgatar uma empresa, fornecedora de insumos e produtos fundamentais ao desenvolvimento da grande maioria das atividades econômicas no Brasil e de toda a sua população.


Uma empresa que durante anos vinha sofrendo com desmandos do principal acionista, o Governo, com esquemas de fraudes e desvios de toda ordem e com um Conselho de Administração que aprovava investimentos superfaturados, inoportunos e inúteis.


Assumiram e negociaram ampla liberdade de gestão, formação de equipe, estabelecimento de políticas, mormente a de preços, redimensionamento de projetos, alienação de ativos e interrupção de investimentos.


O trabalho desenvolvido já apresenta resultados como comprova a recuperação da imagem e do lucro, sobretudo, expressiva valorização da empresa nos mercados, beneficiando fortemente o acionista controlador, bem como grande número de investidores nacionais e internacionais. Fatos muito significativos.


Permito-me, contudo, advertir que ao gerirem a empresa adotando saudáveis regras de governança, cometeram uma grande falha na implantação de algumas ações na busca de resultados imediatos: absorveram, talvez sem perceberem, o horrível ranço da prepotência, comum aos poderosos e monopolistas.


Se esqueceram de algo fundamental, que é estabelecer diálogo COM OS CLIENTES. Falo com conhecimento de causa: Entidades das quais participo tomaram a iniciativa do diálogo e aproximação, sem grande receptividade. Há meses aguardamos uma discussão ampla do assunto.


Embora vários de vocês sejam economistas famosos, parece-me que não levaram em conta que o diesel é componente representativo na formação de preços de inúmeros segmentos da atividade econômica e, em algumas cadeias produtivas, é o item de maior impacto.


O método de formação de preços destas cadeias é incompatível com a política de reajustes quase diários que a Petrobras vem praticando.


Sem saber quanto vai custar o insumo, como formar o preço de venda?


A situação é agravada pelo fato de que os produtos que a PETROBRAS vende não são passiveis de armazenamento pelo consumidor final. Na maioria dos casos é mesmo proibido, por razões de segurança.


A falta de diálogo é patente!


A PETROBRAS poderia estar recuperando seus preços sem prejudicar tanto os seus clientes diretos e a sociedade em geral, que ao final e ao cabo, são os que arcam com os custos deste plano da sua recuperação.


A greve dos caminhoneiros que tantos e graves problemas já provocou, é consequência da insatisfação de quase um milhão de pequenos clientes empreendedores que perderam a capacidade de programarem suas atividades.


Em uma rota do sul ao nordeste do Brasil, é comum a ocorrência de dois ou três reajustes imprevistos desorganizando as ações e irritando os caminhoneiros.


Não sou acadêmico, mas sei que existem meios de promover a recuperação de preços posteriormente aos fatos que a provocaram, ao invés de fazê-lo imediatamente, como a adoção da média móvel, por exemplo.

Uma periodicidade, trimestral ou semestral, divulgada com um mês de antecedência, permitiria aos agentes econômicos fazerem um planejamento e discutirem o repasse deste custo, sem maiores traumas e sem prejudicar o fluxo de caixa da PETROBRAS.


O que de fato aconteceu é que, realmente, para recuperar a PETROBRAS dificultou-se a vida de quem vai bancar o preço da sua recuperação, por mera questão de método.


Ao contrário, Sr. PRESIDENTE, DIRETORES E CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DA EMPRESA, vocês tiveram atitude de total desconsideração com seus CLIENTES, regra inadmissível a uma empresa que tenha uma boa governança.


Os CLIENTES poderiam pagar o elevado preço do produto (fato que não discuto neste momento) sem pagarem o elevado custo adicional de não poderem planejar de forma racional e consistente suas operações.


Mas... senhores e senhoras, ainda é tempo de recuperar o caminho da lógica.


Como vocês, ao esvaziarem o poder do controlador, trouxeram para si esta responsabilidade, é hora de fazer as correções necessárias.


A nossa PETROBRAS tem dois ativos importantes e fundamentais: o PRÉ-SAL e seus CLIENTES.

 

 

Paulo Sérgio Ribeiro da Silva

(Presidente do Grupo Tora Transportes; Vice-Presidente da Federação das Empresas de Transportes de Cargas de Minas Gerais, do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas do Estado de Minas Gerais e da Associação Comercial e Empresarial de Minas)


 

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